Força Mental: Um Problema Crônico do Galo

Por: Rodrigo Campos

Eu sei o que você pode estar pensando ao ver o título desse post. Por que complicar algo tão simples? Dois gols, uma bola, 11 jogadores pra cada lado e um simples objetivo: fazer o gol.

Talvez o futebol fosse mesmo simples, em 1870.

Desde os primeiros relatos sobre estudos, conceitos e formações táticas, ainda no início do século passado, a ciência aplicada ao futebol entende cada vez mais a complexidade do jogo. Cada vez é maior o número de ferramentas de estudo para entender as relações, os espaços e os comportamentos dos jogadores. Hoje, em 2018, não basta apenas seguir com a bola rumo à baliza adversária. Um jogo possui em média mais de 1000 ações, que são geradas a partir de comportamentos dos jogadores, sejam eles treinados ou intuitivos.

“É impressionante como sabemos pouco sobre o jogo que jogamos nossa vida toda.” (Vitor Frade)

Imagem: Futebol e Ciência

Como o fator psicológico está conectado ao comportamento dos jogadores?

Um dos principais conceitos disseminados na “globalização tática”, é o de Modelo de Jogo, que tem como objetivo definir uma organização a toda essa complexidade, integrando todas as fases do jogo, seja com o time no ataque ou na defesa. Cada comportamento dos jogadores contribui para essa organização, seja esse comportamento intuitivo do jogador ou treinado para ser agregado ao modelo.

Vários fatores influenciam nas ações de cada um dos atletas na partida. Nem todos os comportamentos terão uma explicação racional. Se um jogador está confiante, pode arriscar uma jogada de 1 contra 1, mesmo a orientação sendo manter a posse de bola. Ou seja, nenhuma ação deve ser mecânica ao ponto de ignorar os comportamentos próprios e intuitivos de cada jogador.

Veja abaixo um esquema que identifica alguns fatores que influenciam nos comportamentos de um jogador durante a partida.

Esquema: Comportamentos do jogador durante uma partida.

Não vou esmiuçar todos os fatores, vamos direto ao que nos interessa.

Dentre os fatores, a “Capacidade Psicológica” (ou “Força Mental”) consegue ilustrar que o jogador não precisa só entender o jogo taticamente, ou só saber ocupar os espaços certos, ou só ter extrema habilidade, mas também precisa estar concentrado durante os 90 minutos da partida.

Várias são as razões que podem influenciar a “Força Mental” de um jogador de futebol: problemas pessoais, pressão da torcida, pressão da diretoria por resultados e pressão individual para um melhor desempenho, por exemplo.

Não há como dizer qual a % de interferência de cada um desses fatores nos comportamentos dos jogadores, mas não há como ignorar nenhum deles. Tudo irá influenciar as tomadas de decisão, ocupações de espaço e todas as outras ações táticas.

Se quiser aprofundar no assunto, sugiro:

#84 The Pitch Invaders | A Psicologia no Futebol

#87 The Pitch Invaders | Tomada de Decisão no Futebol

Força Mental: Um Problema Crônico do Galo

Thiago Larghi melhorou consideravelmente o desempenho da equipe desde que assumiu, fazendo o torcedor acreditar, que mesmo em um ano difícil em termos financeiros, poderia sonhar alto.

Dentro do turbilhão de críticas à diretoria, que inflama a torcida alvinegra, temos algo bem mais difícil de entender: o jogo.

O que está errado? Por que o time oscila? Temos que demitir o técnico?

Em três rodadas fomos do céu ao inferno.

Em tempos de “caça as bruxas”, onde se procura um culpado a qualquer custo, o jogo fica em segundo plano. A verdade é que a torcida não é obrigada a entender o jogo e toda sua complexidade, mas as ações em massa da torcida durante uma crise, são geradas a partir desse mesmo jogo. Um paradoxo.

Podemos fazer uma análise tática detalhada, que irá encontrar alguns problemas, provavelmente, mas vamos olhar por outro viés.

Talvez tenhamos um problema crônico, que está inserido no jogo, em diferentes momentos do clube. Seja nas glórias de 2013 e 2014, no elenco superestimado de 2017 ou na dúvida de 2018, sempre houve um problema estranho no comportamento dos jogadores em determinas situações.

2018: Do céu ao inferno em 3 rodadas

Buscando entender os motivos pelos últimos resultados ruins, me deparei com um número preocupante. Em 4 oportunidades, nos últimos 10 gols feitos pelo Galo, sofremos um gol do adversário menos de 10 minutos após. Ou seja, 40% desses últimos 10 gols não valeram de nada.

É fato que, estatisticamente, o período de 15 minutos após fazer um gol, é o período que uma equipe mais tem probabilidade de sofrer um gol. A explicação para essa estatística global, é que na maioria das vezes, ocorre um certo relaxamento da equipe após marcar um gol, gerando falhas coletivas e individuais que facilitam o mérito do adversário.

De uma forma geral, o que gera a desorganização é o fator psicológico, onde o relaxamento reduz a concentração dos jogadores, fazendo eles mudarem os comportamentos.

No jogo contra o Sport, a equipe marcou o gol da virada e 2 minutos depois, levou o empate. Se repararmos no lance procurando culpados, conseguiremos várias teses. Seguindo a teoria do relaxamento logo após marcar um gol, vamos avaliar o comportamento do Adílson e Blanco no lance.

Imagem: Segundo gol do Sport.

Adílson vem sendo destaque na temporada principalmente pelo seu estilo posicional. Ele consegue ocupar muito bem os espaços, interceptando e impedindo a progressão de ataques adversários. Mas não é isso que vemos na imagem. Mesmo estando em excelente fase executando a função, Adílson fecha a linha de passe no mesmo lado do Gabriel, permitindo um espaço enorme na frente da área, justamente o espaço criado para a finalização que gerou o gol. Blanco também não se atenta ao espaço.

Logo após a virada, caiu toda a pressão do último jogo, em que o Galo perdeu em casa para o Flamengo. Será que esse alívio gerou essa desconcentração dos jogadores?

Contra a Chapecoense levamos o segundo gol 10 minutos após a virada e depois levamos outro 5 minutos após o terceiro gol, marcado por Roger Guedes.

Muito se discute a influência das decisões de Larghi, principalmente no terceiro gol da Chape, mas não parece algo sintomático? A falta dessa “Força Mental”, a falta de se manter focado independente do resultado, tem sim um pouco de influência dos resultados recentes.

Contra o Flamengo, o problema foi um velho conhecido: o excesso de cruzamentos. Quando o Galo se deparou com a defesa do adversário fortemente postada, teve dificuldade para criar. Ao invés de tentar criar situações mais “limpas” para finalizar, o Galo abusou das bolas aéreas, contrapondo o modelo de passe, posse e triangulações para progredir no campo e criar situações para finalizar.

O Atlético saiu do estilo que vinha atuando após esse “gatilho”, mostrando que a equipe não teve a capacidade psicológica de lidar com a situação e continuar executando o modelo, que não tem como característica o abuso de cruzamentos.

Estatísticas de Galo x Flamengo (49 cruzamentos):

Estatísticas Galo x Flamengo (Galo Estatísticas e Footstats)

O excesso de cruzamentos não é novidade, não é mesmo?

2017: Elenco caro e obrigação de resultado em curto prazo

Em 2017 um dos principais vilões da equipe atleticana foi o excesso de cruzamentos. Mesmo campeão do campeonato mineiro e primeiro lugar geral da fase de grupos da libertadores, o técnico Roger Machado não conseguiu se manter no cargo.

Mesmo com resultados, a torcida exigia mais. Faltava confiança no modelo que Roger tentava implementar. O elenco caro fez a expectativa subir ainda mais. Tudo isso gerou uma pressão enorme em cima dos jogadores, que, mesmo experientes, sucumbiram a desorganização quando o time encontrou dificuldades em penetrar nas defesas adversárias. Pelo Campeonato Brasileiro, o time chegou a fazer 63 cruzamentos contra o Atlético PR.

Em várias entrevistas, nem os jogadores e nem o técnico, conseguiam explicar essa opção pelas bolas aéreas, ou seja, não era algo treinado ou programado para acontecer. A exemplo do jogo contra o Flamengo nesse ano de 2018, o “gatilho” para a desorientação psicológica em 2017, foi a dificuldade em penetrar na defesa adversária.

2013 e 2014: Fora de Casa x Dentro de Casa

Para tentar enxergar como algo mais sintomático ainda, vamos lembrar dos gloriosos anos de 2013 e 2014. Os times campeões da Libertadores e da Copa do Brasil tinha um desequilíbrio muito grande entre jogar fora e dentro de casa.

Mesmo com o time embalado por boas atuações, o Galo não conseguia desempenhar um bom papel fora de casa nos torneios mata-mata. Foi assim nas fases finais da Libertadores e da Copa do Brasil.

Dava a impressão que o time não tinha força mental para aguentar a pressão de jogar fora de casa. Em compensação, dentro de casa, o fator psicológico se virava a favor do Atlético. O time viveu emoções que beiraram o colapso total e que iam até a extrema alegria.

Foto: Newell’s Old Boys 2 x 0 Atlético, na Argentina

Até quando iremos sofrer com a falta da “Força Mental”?

Bom, não tem como responder.

Como vimos, a força mental é apenas um de vários fatores que influenciam os comportamentos dos jogadores. Assim como essa análise, existem várias outras, sejam táticas ou individuais de cada atleta, todas elas tentando dar respostas ao torcedor.

Quais são as possíveis causas?

Esse seria um assunto extenso. Várias poderiam ser as teses. Eu começaria pelas ações da diretoria e poderia dissertar até sobre a parte da torcida. Todas as decisões de um clube, diretamente ou indiretamente, afetam o futebol. O sistema está todo ligado, não se pode gerar um ponto de desequilíbrio e desorganização achando que isso não afetará o produto final, o jogo.

E as soluções?

Inovar em um profissional responsável pela psicologia dos atletas? Aprimorar o treinamento das capacidades psicológicas? Sim, existem maneiras de se treinar esses comportamentos, veja o texto abaixo:

O treino das capacidades psicológicas no futebol (Alberto Tenan)

Não é simples, mas problemas sintomáticos devem ser olhados com atenção, antes que vire uma cultura irreversível.

 

Add a Comment

Your email address will not be published. Required fields are marked *