Falta de planejamento no passado: o que esperar das jovens promessas atleticanas?

Por: Lucas Silva

Foto por: Bruno Cantini / Atlético

O Galo possui uma dívida alta e infelizmente não recebe grandes valores de cotas de TV como Corinthians e Flamengo. Também ainda não conta com um estádio lucrativo com uma parceira financeira como o Palmeiras. Portanto, por motivos de sobrevivência no longo prazo, o clube precisa ter um melhor planejamento para os jogadores formados na sua categoria de base. Com o poder de investimento reduzido, as divisões de base se tornam praticamente a única alternativa para disponibilizar ao time principal jogadores de qualidade, seja para dar retorno técnico ao clube, ou mesmo para vender.

Analisando criticamente a forma como os pratas da casa são lançados no profissional é notória a falta de um planejamento. As chances dadas aos jogadores estão entregues ao acaso e, consequentemente, o sucesso do jogador também será de difícil previsão. Tal quadro é rotineiro em vários clubes brasileiros, com raras exceções como Santos, Atlético-PR e Grêmio. Para comprovar é interessante utilizar dois casos recentes e de sucesso no clube: Bernard e Jemerson. Sim, dois casos de sucesso, pois mesmo quando o Galo conseguiu revelar jogadores de impacto, o processo anterior à revelação dos atletas foi defeituoso.

Bernard chegou ao profissional em 2011, no início do campeonato Mineiro, porque o clube tinha vários problemas na montagem do elenco. Como Tardelli foi vendido, o setor de ataque tinha os nomes dos duvidosos Ricardo Bueno e Jobson, contratados no início da temporada. Então, Bernard foi aproveitado juntamente de Giovanni Augusto e Felipe Soutto, também saídos da base do clube, durante o estadual. Porém, o franzino ponta logo retornou para a base com o clube lutando contra o rebaixamento pelo Brasileiro.

Bernard é, até hoje, a venda mais cara do futebol mineiro (Foto por: Bruno Cantini / Atlético)

Alguns meses depois, o Galo seguia com problemas no elenco. No setor ofensivo, todas as apostas do clube minguavam ao longo do Brasileirão. Felizmente, Bernard foi o destaque da conquista da Taça BH e, quando Cuca foi contratado para salvar o time do rebaixamento, buscou o jovem na base e o utilizou como titular no time principal. Mesmo sofrendo para se adaptar – visto que a conjuntura não era a mais propícia para lançar um jovem no profissional – seguiu como titular até se tornar a revelação do Brasileiro de 2012, conquistando a Libertadores no ano seguinte e se tornando a maior venda da história do clube. Entretanto, a forma como foi lançado é motivo de preocupação, já que só recebeu oportunidades quando o clube estava sem outra opção e desesperado para não ser rebaixado.

O mesmo “planejamento” ocorreu com Jemerson. O zagueiro começou a treinar com os profissionais em 2013, mas era esperado não receber chances com um setor já bem servido com Réver, Leonardo Silva, Gilberto Silva e Rafael Marques, que deixou o clube no meio do ano e foi substituído pelo já veterano Emerson. Contudo, em 2014 o panorama se altera porque logo no início do ano, pois Réver e Emerson conviveram com sérias lesões. Edcarlos, contratação duvidosa da diretoria, não correspondia às expectativas, e Otamendi, esse uma ótima aposta, deixou o clube no meio do ano. Jemerson estreou pelo profissional no jogo de ida contra o Lanús, pela final da Recopa Sul-Americana, na Argentina. Réver, Emerson e Edcarlos estavam lesionados, e então a chance, ou a bomba, caíram no colo de Jemerson. O qualificado defensor teve a tranquilidade necessária para fazer uma boa partida, e ao longo da temporada, tomar a titularidade. Mas como aconteceu com Bernard, Jemerson foi lançado quase por obra do acaso, e considerando sua pouca rodagem no time profissional, teve uma rápida e atípica adaptação ao time principal, o que não é o mais comum se tratando de jovens jogadores.

Jemerson chegou a ser convocado para a seleção em 2015 (Foto: Reprodução / TV Globo MInas)

O panorama é repetido com outros jovens pratas da casa, como Carlos, Gabriel e Bremer, entregando ao acaso a possibilidade de sucesso sendo sempre escanteados como opções até não restar outra alternativa a não ser jogarem e serem testados. Basear a abordagem crítica sobre a base do Galo pegando como exemplo os casos de sucesso, pode soar estranho, mas ao refletir sobre o processo que culminou em tal sucesso, entendemos o motivo de não serem muitos os casos de jogadores revelados na base que renderam frutos ao clube.


2018 foi um ano de transição da gestão de futebol do Galo, inclusive com promessas da diretoria visando um melhor aproveitamento da base, até pelas condições reduzidas do clube para buscar contratações. Mas a lógica, como mostra o gráfico acima, pouco se alterou. O clube não deu sequência a nenhum jovem da base, a não ser o zagueiro Gabriel, que já estava no elenco desde 2016. Mesmo Bremer, que rendeu alguns milhões aos cofres alvinegros, teve menos minutos que merecia ao longo do ano. Os casos de Alerrandro e Bruninho são emblemáticos. Após receberem pouquíssimas chances no Campeonato Mineiro, os dois atletas de 18 anos voltaram a jogar pelo time júnior em diversos momentos. No final da temporada, com o fracasso da maioria das contratações realizadas por Alexandre Gallo, voltaram a ter algumas chances, e naturalmente, não conseguiram grande destaque. Jemerson e Bernard são exceções da regra.


O processo de formação

Quando se fala sobre base, muitos têm a opinião de que o Atlético não revela um bom número de atletas porque a formação não é boa. Porém, o clube possui boa média de convocados para seleções de base, por exemplo, o que pode contribuir para mostrar que o trabalho de formação do clube também não é de todo ruim. Olhar para a base com mais atenção, melhorando tanto o processo de formação dos jogadores, quanto a transição para o profissional, é uma necessidade urgente para o Galo. A atual conjuntura econômica do clube e de seus concorrentes deixaria a categoria de base assegurar jogadores de qualidade sem precisar concorrer com clubes mais endinheirados pelos principais jogadores do país.


Obstáculo: mentalidade da torcida

Quando se fala sobre utilizar a base com protagonismo no time profissional, um dos maiores empecilhos é a mentalidade do torcedor que acompanha o clube. A torcida atleticana sempre se notabilizou por certa impaciência com os jogadores formados no clube. Muitas vezes, o torcedor não tem paciência para lidar com o processo de amadurecimento e desenvolvimento de um atleta da base no profissional, preferindo uma contratação que, por mais que seja duvidosa, ao menos pode suprir a ansiedade por ver o elenco se reforçando. Essa lógica imediatista atrapalha muito um processo de lançamento de jovens. Bernard foi citado como um exemplo de sucesso, porém com tratamento problemático vindo da própria diretoria, que contratou uma série de jogadores antes de dar chance ao garoto. Mas a torcida alvinegra também jogou contra em muitos momentos. No início de sua trajetória, Bernard chegou a ser vaiado, e era excessivamente criticado por defeitos em seu jogo, compreensíveis para um jovem que apenas começava a carreira.


Apostas para mudar o futuro

Posteriormente a essa análise crítica, listamos alguns atletas que podem, caso o clube os olhe com algum carinho, inverter a lógica de mau aproveitamento da base por parte do Atlético.

Alerrandro

O de maior potencial. Precisa desenvolver o físico para suportar o nível profissional, porém possui bom repertório. Pode receber de costas e girar para finalizar como pode sustentar no pivô e dar um passe em profundidade para alguém infiltrando, além de ter boa noção para atacar o espaço. Parece que o Galo procura um centroavante reserva com bom jogo aéreo, mas é um atacante promissor e deveria ser utilizado para ganhar experiência com o clube dando a ele um carinho especial.

Alerrandro (Foto por: Bruno Cantini / Atlético)

Bruninho

Forma com Alerrandro a dupla de maior potencial e deviam – no mínimo – receberem oportunidades esporádicas em 2019. É um meia moderno, ou seja, boa técnica e criatividade aliada a uma boa dinâmica, podendo atuar como meia tanto pelos lados quanto por dentro. Recebeu elogios de outros diretores de base, inclusive do maior rival, como jogador de qualidade e com ótimo potencial.

Bruninho (Foto por: Bruno Cantini / Atlético)

Daniel

Um nível abaixo de Alerrandro e Bruninho, porém tem a vantagem de ser mais maturado fisicamente do que os outros dois anteriores, embora seja menos técnico. Pode jogar pelos lados sendo um autêntico meia-atacante com boa chegada na área pra finalizar com um pé calibrada para bater faltas e chutar de média distância. Jogador mais interessante, por exemplo, que as atuais apostas utilizadas no ano, como Nathan, Edinho e Tomas Andrade.

Daniel (Foto por: Bruno Cantini / Atlético)

Marquinhos

Emprestado para a Chapecoense em 2018, porém a luta do clube para não ser rebaixado deixou o atacante ser menos utilizado do que poderia. Pode atuar como um meia tanto centralizado quanto aberto, possui boa capacidade de criação de jogadas e poderia ser utilizado esporadicamente pelo Galo durante 2019, embora tenha passado por problemas extracampo fazendo o atleta perder prestígio no clube.

Marquinhos (Foto por: Bruno Cantini / Atlético)

Neto

É mais novo e a posição de volante tem boas opções no elenco profissional, ainda mais caso o clube contrate Jair, então, é normal ainda não ser utilizado no profissional. É frequentemente convocado pela seleção sub-17, um volante que atua de uma área a outra (bastante dinâmico), físico e com boa capacidade de organização, além de boa finalização fazendo alguns gols em cobranças de falta.

Neto (Foto por: Bruno Cantini / Atlético)

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