Por que os laterais do Galo desarmam tanto?

Por: Rodrigo Campos

*Aviso importante: esse post possui o tal “tatiquês”, você pode parar de ler agora, se preferir.

Por que os laterais do Galo desarmam tanto?

Foto por: Bruno Cantini / Atlético

Durante os últimos anos, é comum ao torcedor alvinegro ver o Marcos Rocha sendo líder das estatísticas de desarmes e roubadas de bola. É inegável o domínio do jogador sobre o fundamento. Esse ano, ele já possui 84 desarmes e tem a maior média de desarmes da equipe, 3 por jogo.

Nos últimos jogos, Marcos Rocha vem se recuperando de lesão e retornando ao time titular. Quando estava lesionado, Alex Silva, chamado as pressas para retornar do empréstimo ao América, foi o titular do time e nos surpreendeu positivamente com seus números de desarmes. Alex Silva acumulou 20 desarmes em apenas 8 jogos, uma média de 2,5 desarmes por jogo, segunda melhor média da equipe.

Esses números nos chamaram a atenção e fomos analisar a média de desarmes dos jogadores na temporada 2017. Veja abaixo como ficaram os laterais no ranking, considerando os jogadores com no mínimo 300 minutos em campo em 2017:

  • 1º Lugar: Marcos Rocha, 84 desarmes, 3,00 por jogo;
  • 2º Lugar: Alex Silva, 20 desarmes, 2,50 por jogo;
  • 3º Lugar: Leonan, 10 desarmes, 2,50 por jogo;
  • 4º Lugar: Carlos César, 12 desarmes, 2,40 por jogo;
  • 10º Lugar: Fábio Santos, 48 desarmes, 1,30 por jogo.

Dos 10 primeiros colocados em desarmes por jogo, 5 são laterais. Os desarmes dos laterais representam 27% dos desarmes do time na temporada, isso sem contar os números do volante Yago, que atuou em alguns momentos na lateral direita. Podemos destacar também os laterais esquerdos, que aumentaram a média de desarmes do ano passado para esse ano.

Para se ter uma ideia de comparação, seguem abaixo números dos laterais dos melhores times do campeonato brasileiro até então:

Mas por que? Por que desarmam tanto? Muitos dos nossos seguidores sugerem: “Isso não era pra ser o papel dos volantes”? Bom, vamos tentar entender como isso acontece.

Desarmes e processo de marcação (Lá vem o “tatiquês”)

O desarme, em resumo, é o evento onde o jogador que está sem a posse retira a bola dos pés do adversário e inicia a próxima jogada com o seu time em posse. Não são somadas as interceptações nos números. O desarme é um fundamento que representa uma parte do processo de marcação de uma equipe, que por sua vez é uma parte da organização do time e possui diversas diretrizes. Várias são as maneiras de se organizar uma equipe.

Durante o ano, o técnico Roger Machado vem modificando o time do Galo para tentar achar o modelo perfeito, o encaixe do time. Apesar das mudanças, podemos reparar claramente em alguns jogos como o time se propõe a se organizar no momento defensivo, com duas linhas de 4 próximas, compactadas, e dois jogadores a frente das linhas atacando a saída de bola dos zagueiros adversários. Veja a imagem abaixo:

Imagem: FOX Sports

Além do posicionamento das linhas, a movimentação dos atletas é importante. Se o adversário se movimenta com a posse de uma lado para o outro, as linhas seguem o mesmo movimento. Com essa organização, a primeira linha de marcação atua para o fechamento da linha de passe do adversário, para evitar infiltrações entre as linhas. Isso gera problemas ao adversário, que precisa então ir girando a bola até encontrar espaços, que, na maioria das vezes, estão na lateral do campo. Veja a imagem abaixo:

Imagens: FOX Sports

Mas por que deixar espaços na lateral?

Os espaços cedidos na lateral no campo no momento defensivo do Galo são deixados propositalmente. A ideia é sempre ceder o mínimo de espaço possível, porém se houver espaço, esse deve se dar na lateral. Esse conceito é conhecido como “Indução” e se resume em conduzir, fechando os espaços, a posse de bola do adversário para o local do campo que a equipe consiga pressionar o adversário através de, por exemplo, uma superioridade numérica no local, como nas imagens abaixo:

Imagens: FOX Sports

Ai então é que começamos a encaixar os números e o que podemos observar em campo. Após a indução do adversário para a lateral, as linhas se movem em direção a bola e geram uma superioridade numérica, com o lateral, dois volante ou um “ponta” e um volante, dependendo do posicionamento em campo. Com essa concentração maior de jogadores, o adversário é pressionado, aumentado o número de erros e também aumentado a chance de acontecerem os desarmes. Veja onde é localizado o maior número de desarmes nos jogos do Galo:

Mapas de Desarmes: Footstats

Esse sistema de marcação é um dos fatores que levam os laterais do Galo a possuírem tantos desarmes na temporadas, pois leva o lateral a ter uma vantagem na hora de atacar o adversário e roubar a bola.

Veja essa entrevista com Roger Machado, por Renato Rodrigues do DataESPN:

http://espn.uol.com.br/post/682608_entrevista-do-mes-roger-machado-fala-sobre-atletico-mg-gremio-e-em-explorar-essencia-do-futebol-brasileiro-todos-beberam-da-nossa-agua

Podemos destacar esse trecho sobre a organização da marcação:

”… tenho por preferência uma marcação mais zonal, com pressão ao portador da bola, cuidando bem dos espaços, induzindo o adversário para alguma faixa determinada do campo e roubando a bola de forma mais organizada.”

Então é tudo muito simples! Faz isso toda hora e pronto.

Bom, não é bem assim. Para o sistema de marcação funcionar todo jogo o treinador precisa de vários fatores em conjunto para conseguir transmitir a ideia aos jogadores, cabe a ele saber como fazer isso. Fatores como o pouco tempo para treinamento e desgaste físico dos jogadores dificulta muito a aplicação desse sistema, que exige demais dos atletas.

Apesar de não ver essa aplicação tática em todo jogo do Galo, conseguimos ao menos visualizar uma ideia de jogo e torcemos para que ela seja recorrente nas partidas. Esse é um dos fatores que nos leva a acreditar e confiar no trabalho do técnico Roger.

Mas os laterais sempre tiveram muitos desarmes!

É Fato. O Galo possui laterais com muita qualidade técnica para desarme. Ano passado, mesmo sem Roger, tanto Marcos Rocha como Carlos César tiveram média de desarmes muito altas. O que podemos ver de diferente esse ano é um equilíbrio entre as laterais. Os desarmes estavam muito concentrados na lateral direita, muito mais por ser a mais atacada pelos adversários devido as subidas dos jogadores do que por organização defensiva. O que vemos hoje é um aumento de desarmes pelos laterais esquerdos. Fábio Santos, por exemplo, subiu de uma média de 0,89 desarmes por jogo em 2016 para 1,3 desarmes por jogo em 2017.

Entendi, então o melhor é o time estar equilibrado?!

Sim. O equilíbrio é fundamental. Não queremos ver a lateral direita sobrecarregada, esse equilíbrio torna o time mais seguro defensivamente. Esse é um dos fatores que acreditamos ser fundamental para a média de gols sofridos ter diminuído esse ano. Após 42 jogos, em 2016, tínhamos uma média de 1,19 gols sofridos por jogo e em 2017 temos uma média de 0,93 gols sofridos por jogo.

Resumo da análise

Com os números, identificamos que os laterais possuem uma média muito alta de desarmes por jogo, fato que acontece a muito tempo no Galo. Para tentar entender, buscamos explicações na organização defensiva do time, aplicada pelo técnica Roger Machado. Com todo o “tatiquês” mostrado, explicamos não só a boa média de desarmes dos laterais como também vimos que os números desse ano refletem uma maior organização do sistema defensivo, que vem tomando menos gols.

Sempre é bom lembrar ao leitores que números não transmitem a verdade absoluta, não achamos que estatísticas são tudo no futebol. Essa análise é um exemplo de como podemos utilizá-los para entender como está jogando nosso Galo.

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