Galo e o pesadelo chamado “Posse de Bola” no Campeonato Brasileiro

Foto por: Bruno Cantini / Atlético


GALO E O PESADELO CHAMADO “POSSE DE BOLA” NO CAMPEONATO BRASILEIRO

Por: Rodrigo Campos

A posse de bola se tornou assunto rotineiro nos debates sobre futebol. Esse ano, muitas equipes estão assumindo posturas reativas em campo, ou seja, preferem ser atacadas e utilizar o contra ataque como uma da principais armas para o gol, “dando” ao adversário o controle da posse de bola. Devido a isso, constantemente surgem questionamentos como: A posse de bola é importante? O que é melhor: ter ou não maior posse?

A discussão gera polêmica por se tratar de um assunto com inúmeros fatores a serem analisados. Números de posse de bola “frios” não levam nenhuma análise para um caminho objetivo, que traga soluções ou diagnósticos precisos.

Para se analisar a posse dentro de uma visão estatística, temos que considerar vários fatores, como por exemplo a efetividade do domínio ou não da porcentagem de posse de bola, a faixa do campo em que se concentra a posse, quantos passes são trocados dentro do tempo que o time está com a bola, entre outros.

Para se ter uma ideia comparativa: O Leicester foi campeão inglês na temporada 2015/2016 com uma média de 44% de posse de bola, já o líder de 2017 até então, o Manchester City, de Pep Guardiola, possui uma média de 66%. São duas formas completamente diferentes de tratar a posse de bola que se mostram vencedoras.

A quem interessar, veja algumas análises sobre a posse de bola no Brasil:

  1. https://globoesporte.globo.com/futebol/brasileirao-serie-a/noticia/serie-a-times-com-mais-posse-de-bola-tem-aproveitamento-de-33-veja-rankings.ghtml
  2. http://espn.uol.com.br/post/711281_que-tiki-taka-que-nada-no-brasileiro-posse-de-bola-e-caminho-para-a-derrota
  3. http://espn.uol.com.br/post/728520_a-ma-interpretacao-da-posse-de-bola-e-os-enganos-trazidos-pelos-numeros-frios-no-brasil

Resumindo de forma simplória, o importante não é a porcentagem de posse de bola e sim o que a equipe faz quando tem a posse.


Qual o contexto do Galo nessa análise?

Como tudo esse ano no Galo, é difícil interpretar como a posse de bola se encaixa nos diferentes estilos de jogo que vimos em 2017. A troca de treinadores cria a dificuldade de fazer uma avaliação consistente. O que vamos ver a seguir é uma análise sobre o que o Galo faz quando detém a posse de bola no Campeonato Brasileiro deste ano. O que esperar do Galo quando tem a bola? Onde se concentra a posse de bola?

Primeiramente, veja a seguir como foram todas porcentagens de posse de bola no Campeonato, até a 26ª rodada.

Imagem: Galo Estatísticas – Posse de Bola – Campeonato Brasileiro

Em resumo, nos jogos em que o Galo venceu, teve uma média de 47% de posse de bola. Já quando foi derrotado, teve uma média de 57,6% de posse.

Quando comparamos o desempenho em casa e fora de casa, vemos que:

  • Média geral de posse de bola no campeonato: 53,23%
  • Média de posse em casa: 58,62%
  • Média de posse fora de casa: 47,85%
  • Média de posse quando venceu em casa: 51,00%
  • Média de posse quando empatou em casa: 59,33%
  • Média de posse quando perdeu em casa: 61,57%
  • Média de posse quando venceu fora de casa: 45,00%
  • Média de posse quando empatou fora de casa: 51,75%
  • Média de posse quando perdeu fora de casa: 48,33%

Vemos que a maioria das vitórias do Galo se deram quando o time teve médias menores de posse de bola. Em casa, quanto maior a média de posse, mais chance de derrota. A maioria das vitórias foram conquistadas fora de casa, onde o Galo possui menor média de posse de bola.


Então a receita é simples, vamos dar a posse ao adversário em todos os jogos!

Não é bem assim. Em poucos momentos da temporada o Galo mostrou a presença de uma transição ofensiva rápida, devido a isso, em muitas partidas precisará propor o jogo, principalmente jogando em casa, e, consequentemente, irá possui uma média de posse de bola mais alta. 

O time precisa criar alternativas quando tiver posse de bola, que precisa ser objetiva: independente do tempo em que a bola permanecer com a equipe, o Galo precisa sempre trabalhar a posse para criar oportunidades de gol.


Quando o Galo tem a bola, o que ele faz com ela?

Para começar a detalhar a posse de bola, vamos buscar alguns dados estatísticos. A média de bola rolando do Campeonato Brasileiro é de 56,3%, que representa aproximadamente (considerando acréscimos médios) 54 minutos e 13 segundos de jogo. Vamos considerar 55 minutos. Como a média de posse do Galo é de 53,23%, ele possui aproximadamente 29 minutos com a bola nos pés dos jogadores.

Nesses 29 minutos, o Galo tem as seguintes médias no Brasileiro:

  • 13,83 passes por minuto;
  • 1 finalização a cada 2 minutos e 21 segundos;

Veja o campo dividido em 36 quadrantes e os fundamentos totalizados e posse de bola por quadrante no Campeonato Brasileiro:

Imagem: Galo Estatísticas – Fundamentos e Posse de Bola

Veja em que local do campo está concentrada a posse de bola e também os passes distribuídos pelo Galo no Brasileiro:

Imagem: Galo Estatísticas – Posse em Minutos e Passes Por Jogo

É possível ver que a posse e os passes são distribuídos mais pelo lado esquerdo do campo. Veja que a distribuição não é uniforme entre os cantos, tornando o Galo um time mais previsível na fase ofensiva.

Outro ponto que se pode observar nos jogos é a dificuldade do Galo de criar jogadas próximas da área do time adversário. Quando enfrenta times mais fechados, com as linhas defensivas próximas e baixas, o Galo tem dificuldade. Veja na imagem também, que o Galo diminui a média de passes e a posse de bola próximo da área adversária, com incidência maior nos cantos esquerdo e direito, o que explica o excesso de cruzamentos em alguns jogos.

Veja agora a comparação com os números de outras equipes, tanto do Campeonato Brasileiro como da Europa, que estão posicionadas na parte de cima tabela de classificação da liga do seu país.

Imagem: Galo Estatísticas – Análise da Influência da Posse de Bola no Desempenho das Equipes

As equipes possuem estilos diferentes e maneiras diferentes de tratar a posse de bola. Veja por exemplo que tanto Botafogo como o Grêmio precisam, em média, de 8 finalizações para fazer um gol, porém, o Botafogo possui uma média de 46,7% de posse de bola e o Grêmio 52,6%.

O Napoli, do técnico Maurizio Sarri, possui uma média impressionante de 20 passes por minuto com a posse. O Corinthians, líder do Campeonato Brasileiro, possui uma média de 16,2 passes por minuto. O número alto de passes, geralmente curtos, por minuto, nos indica uma movimentação e criação de espaços muito grande da equipe. O Galo, apesar de possuir uma média de posse de bola maior que a do Corinthians, troca apenas 13,8 passes por minuto.

Em uma análise geral da comparação, podemos ver que o Galo, apesar de possui uma média alta de posse de bola, não traduz essa posse em criação através de passes, finalização e, consequentemente, gol.


Resumo: o que está errado quando o Galo possui a posse de bola?

É normal em alguns momentos nas partidas, o Galo agir de forma reativa, seja jogando fora de casa ou ganhando de algum adversário em casa. Porém, quando precisar propor o jogo, principalmente jogando em casa, o Galo terá que dar mais efetividade a sua posse de bola.

Veja agora alguns fatores, observados a partir dos números, que podem estar prejudicando o desempenho do Galo quando possui maior posse de bola no Campeonato Brasileiro.


  • Média de posse de bola alta, porém, em relação aos outros times, distribui menos passes por minuto, média de apenas 13,83. Uma possível causa é a falta de movimentação e criação de espaços do time. O jogador fica mais tempo com a bola nos pés antes do passe.

  • Número baixo de finalizações criadas a partir de jogadas construídas por passes, lançamentos ou cruzamentos. De todos as equipes comparadas, o Galo é a que possui a menor porcentagem de finalizações criadas a partir de um passe. De todas as finalizações do Atlético no Brasileiro, apenas 69,66% são criadas a partir de uma assistência.

  • Poucos passes trocados no último terço do campo. O Galo tem dificuldades de criar espaços entre linhas no campo de ataque, por isso, os passes são realizados em uma faixa do campo que não permitem que a jogada seja trabalhada para uma finalização limpa. A prova disso é que da média de 404 passes que o Galo troca por jogo, apenas 2,14% geram uma finalização e, dessas finalizações, apenas 8,98% se tornam gols (pior porcentagem das equipes comparadas).

  • Fase ofensiva previsível. Como vimos, o Galo possui uma média muito maior de passes e posse de bola no lado esquerdo ofensivo do campo. O desequilíbrio entre os lados torna o ataque do Galo previsível.

A posse de bola não é necessariamente um pesadelo, porém precisa ser bem trabalhada e objetiva, tudo dentro de um estilo de jogo pré definido e treinado. Esse é mais um exemplo de análise que podemos observar vendo as partidas como também analisando os números.

O Galo tem pouco tempo para corrigir os erros dessa temporada, mas reconhecendo o que está errado, é possível evitar novos anos como esse.

 

Fonte dos números:

Footstats

WhoScored

 


Acompanhe o Galo Estatísticas!

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